"Nunca escrevo de dia porque é como ir pelado a um supermercado – todos te podem ver. À noite é quando saem os truques da manga… E vem a magia.” (Bukowski)
16 fevereiro 2014
Do lado de dentro
Uma mulher ao sair da estação de metrô avista, como de costume, uma série de meninos de rua deitados ao redor do lugar. Mas naquele dia, ao invés de seguir em frente, passando direto por essas almas invisíveis como fazemos todos os dias, preferindo não as enxergar, porque de alguma forma isso nos causa culpa, ela parou. Chamou-lhe a atenção um homem tentando acordar um garoto dormindo no chão, porque estava deitado sobre uma poça de xixi, e o sol já começava a esquentar. Ela foi em sua direção, tomada pela situação do pequeno, e o convidou para tomar café da manhã em sua casa. Aquela mulher era a minha mãe.
Quando chegou em casa ficamos surpresos. Na época com 13 anos, já tinha visto muita miséria na TV, muita fome nas ruas, nas favelas, mas nunca tão de perto, nunca dentro de casa. M - como o irei chamar nesta história - era franzino, muito magro; suas costelas quase rasgavam a pele frágil que as cobria. Era abatido, pequeno e moreno. No entanto, após três banhos, descobrimos que era, na verdade, branco.
Depois de nos apresentarmos, minhã mãe o entregou algumas roupas para que pudesse se vestir. Enquanto ele se banhava, ela nos contou um pouco da história. Antes de vir para casa, precisou parar para comprar-lhe um par de chinelos, porque a bermuda surrada que vestia era a única coisa que cobria seu corpo. A caminho de casa, M só fez duas perguntas: a primeira, se morávamos muito longe; a segunda, o que nossos vizinhos iriam pensar. Vejam vocês, nossa sociedade é tão eficiente, que consegue fazer a vítima se sentir culpada. M tinha plena noção de sua situação e de como era visto, e se sentia menos por isso, sentia como se não pertencesse àquele lugar, que não deveria ou merecia estar ali. E era só uma criança. Minha mãe respondeu que devia a muita gente, mas que não aos seus vizinhos e que, além disso, ele era seu convidado.
De um simples café da manhã, ele ficou também para o almoço e depois para o jantar. M passou dois dias e duas noites em nossa casa. Tempo suficiente para comprovarmos a suspeita de que ele não tinha 13 anos, nem era órfão, como dissera. Era notório que estava mentindo, por ser muito pequeno, do tamanho de meu irmão mais novo, na época com 10 anos - eram da mesma idade, afinal - e saber manusear bem o computador, além de conhecer jogos de videogame. Nenhuma criança que cresceu na rua saberia de tais coisas com tamanha precisão. Não demorou, minha mãe achou sua foto no site de crianças desaparecidas e contatou sua família.
Seus pais moravam em Parada Morabi, lugar do qual nunca tinha ouvido falar antes. Para chegar lá, era necessário pegar o trem de Saracuruna e saltar no ponto final, depois, mais a frente, pegar um trenzinho de uns três vagões apenas, que ainda soltava fumaça. Lá, descobrimos que M tinha mais três irmãos, uma menina mais velha e dois meninos mais novos. Um deles tinha alguma espécie de retardo mental, mas a mãe dos garotos não sabia dizer qual. O outro era apenas um bebê, de uns oito meses no máximo. Ele tinha machucados por todo o corpo e, novamente, a mãe desconhecia por qual tipo de bicho era ocasionado, já que na casa havia de tudo, incluindo ratos.
A mãe de M era, aparentemente, dona de casa, enquanto seu pai dirigia caminhões e tinha como hobbie o vício pela bebida e drogas pesadas. Cansado do ambiente de uma família desestruturada, M foi morar com a avó, no mesmo bairro e bem perto da casa de seus pais. A senhorinha, única que parecia dar afeto ao garoto, se mantinha viva através de uma bomba de oxigênio, pois tinha DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica) e por isso lamentava não poder vigiá-lo como gostaria. Ela então contou como tudo começou.
M estudava em um colégio público perto de casa, mas um belo dia, de uma hora para outra, foi transferido para uma unidade mais distante. Foi então, longe dos olhos de sua avó e ouvindo seu pai sempre repetir que ele deveria "se virar", que experimentou pela primeira vez o crack. E se viciou. A partir daí sua vida piorou mais do que poderia imaginar. M passou a fugir constantemente de casa e virou praticamente um morador de rua. Sem receber ajuda, suporte ou tratamento, ele passou a levar a vida correndo atrás do crack. Quando tentava retirar algumas palavras de sua mãe sobre o assunto, ouvia como consolo "fuma longe daqui, que o conselho tutelar tá de olho em mim". Não era para menos.
Foi pela sua vivência nas ruas que M conheceu minha mãe, que após o devolver, lutando contra sua vontade, para sua família por direito, conseguiu transferi-lo de volta para seu antigo colégio e o ajudou das formas que estavam ao seu alcance. Ela o ligava todas as noites e o buscava aos fins de semana, os quais passávamos todos juntos. Foram três ou quatro no total até ele fugir novamente e nos deixar sem notícias. Nunca mais soubemos dele.
M não só tinha, como expressava uma enorme vontade melhorar. Queria ajuda, mas nenhuma clínica pública aceitava alguém da sua idade. Não tinha suporte da família, nem do governo, e enfrentar tudo isso sozinho era demais para ele. M só tinha 10 anos e teve não só sua infância, como sua vida roubada. Ele não escolheu, e nem poderia, seu destino. Como as pessoas poderiam então culpa-lo se por acaso, no futuro, viesse a roubar, fosse para comer ou para sustentar seu vício? Portanto, não me digam que os milhares de sonhos roubados que vemos todos os dias dormindo no chão, pedindo esmolas ou cometendo crimes tiveram escolhas na vida, porque parece fácil quando a sua maior preocupação quando criança era ganhar aquele brinquedo que tanto pediu ao papai noel.
Entendo e fico feliz que existam casos em que as pessoas conseguem superar e traçar um rumo diferente. Mas isso não é fácil e nem cobrável. Leio todos os dias coisas como "bandido bom é bandido morto" e "direitos humanos para humanos direitos", mas o que são humanos direitos? Aqueles que amarraram e espancaram um menino a poucos dias? Ou os que se sentem revoltados por pessoas defenderem o direito à vida de alguém? Entendam que isso não é ser a favor de crimes ou criminosos, mas sim de que eles tenham um tratamento justo, previsto na lei. "Justiça" com as próprias mãos não é justiça, é carnificina. Não seria preferível reeducar e oferecer oportunidades no lugar de maltratar e traumatizar ainda mais essa vítimas - sim - da sociedade?
Em todos os olhares perdidos, em todas as esperanças esvaídas, eu vejo M. Ele pode ser o rapaz amarrado ao poste, ele pode me assaltar amanhã ou matar o meu amigo. E ele pode morrer a qualquer momento por uma vida que não escolheu, mas que é a única que conhece. Eu sinto muito que alguém tenha que passar por isso. E cada vez que eu pensar nele, ou em todos os outros nessa situação, os enviarei muita luz e me lembrarei de ser uma pessoa melhor a cada dia, uma pessoa que não se deixará levar por um mundo que se esqueceu o que é o amor ao próximo.
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