04 julho 2013

Drogas: um vício bilionário

    As drogas fazem parte da história da humanidade. Apesar da atual conjuntura política de combate a elas vigente ainda na maioria dos países, como no Brasil, e opiniões divergentes sobre o assunto, uma coisa tornou-se difícil de questionar:  esta guerra é uma guerra perdida.
    Em levantamento feito pela ONU, comprovou-se que o narcotráfico movimenta mais de 400 bilhões de dólares por ano. Segundo o Fundo Monetário Internacional, em 2008, 352 bilhões de dólares foram absorvidos pelo sistema bancário do planeta. A lavagem de dinheiro é feita pela Internet e abrange bancos de inúmeros países.
    A situação não é diferente no Brasil, de acordo com o doutor em sociologia e professor da UFRRJ José Cláudio Alves, o crime organizado é organizado pelo Estado. “1kg de cocaína pura custa cerca de 7 mil reais, mas misturando-a a outras substâncias, como pó de mármore, o mesmo 1kg passa a custar 42 mil reais”, explica. Dessa forma, não é complicado imaginar por que o mercado de drogas movimenta bilhões no Rio de Janeiro e em outras capitais, nem por que é lucrativo para o governo que o tráfico permaneça na surdina.
    Conforme números de 2009 –  Lenad  (Levantamento Nacional de Álcool e Drogas),  feito pela Unifesp – o Brasil é o segundo maior consumidor de cocaína e derivados, atrás apenas do Estados Unidos. Este último já gastou cerca de 1 trilhão de dólares nos últimos 40 anos no combate às drogas, enquanto o Brasil retira, por ano,  R$183 bilhões dos cofres públicos no combate à violência, 22% são gastos somente com o narcotráfico e crimes envolvendo o uso ou a venda de drogas.  Ambos os investimentos se mostram ineficazes já que o número de usuários só se faz crescer onde a lei é recriminatória. Na Holanda, onde a maconha é liberada, o seu uso entre os jovens é o mais baixo da Europa.
    Em estudo realizado pelo psicólogo canadense Bruce Alexander nos anos 70 com ratos de laboratório, descobriu-se uma ironia nas sociedades que criminalizam o usuário de drogas: o problema é a jaula. Bruce decidiu repetir o experimento que deu origem a todo o terror ao redor das drogas, trancando ratinhos albinos em gaiolas com dois bebedouros, um que dava acesso à água e outro a morfina, heroína ou cocaína. Como era de se esperar, estes tornaram-se viciados, deixando de lado necessidades como comer, o que os levava à morte. Porém, ele construiu outra gaiola, maior, com diversas opções de lazer, um “Rat Park”, e incluiu os mesmos bebedouros. Os ratos do parque, ao contrário dos outros, não ficaram viciados e quase sempre preferiam água às demais substâncias. O consumo de drogas entre eles foi 19 vezes menor, o que nos leva a concluir que os usuários de drogas permanecem no vício por não terem outras opções.
    Crime maior que a lucratividade ilegal do tráfico, é o tratamento dado aos dependentes químicos onde não existe uma política para usuários de álcool e outras drogas sem exclusão. Usuários moradores de rua são internados compulsoriamente, violando o ART. 230 ECA, no caso de crianças e adolescentes, e o direito de ir e vir de todos. Ao invés de receberem tratamento, são levados à verdadeiros abrigos, tão desorganizados que nem sequer possuem o controle de quantas vezes uma pessoa passa por ali.
    Por isso o discurso de muitos, surpreendentemente até de setores conservadores da sociedade, tem mudado. Há uma real necessidade da legalização das drogas no Brasil e no mundo, porque é inquestionável que isso é uma questão de saúde pública, e não de polícia. O governo precisa parar de tratar o usuário de drogas como criminoso e entender que, na verdade, ele é um ser humano que precisa de ajuda. Com a legalização, há a possibilidade de resolução de outros problemas, como o alto investimento no combate às drogas, que poderá ser revertido em políticas de conscientização nas escolas e tratamento para dependentes químicos, e o rompimento da organização bilionária que é o tráfico de drogas.

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