Diário da Madrugada
"Nunca escrevo de dia porque é como ir pelado a um supermercado – todos te podem ver. À noite é quando saem os truques da manga… E vem a magia.” (Bukowski)
16 fevereiro 2014
Do lado de dentro
Uma mulher ao sair da estação de metrô avista, como de costume, uma série de meninos de rua deitados ao redor do lugar. Mas naquele dia, ao invés de seguir em frente, passando direto por essas almas invisíveis como fazemos todos os dias, preferindo não as enxergar, porque de alguma forma isso nos causa culpa, ela parou. Chamou-lhe a atenção um homem tentando acordar um garoto dormindo no chão, porque estava deitado sobre uma poça de xixi, e o sol já começava a esquentar. Ela foi em sua direção, tomada pela situação do pequeno, e o convidou para tomar café da manhã em sua casa. Aquela mulher era a minha mãe.
Quando chegou em casa ficamos surpresos. Na época com 13 anos, já tinha visto muita miséria na TV, muita fome nas ruas, nas favelas, mas nunca tão de perto, nunca dentro de casa. M - como o irei chamar nesta história - era franzino, muito magro; suas costelas quase rasgavam a pele frágil que as cobria. Era abatido, pequeno e moreno. No entanto, após três banhos, descobrimos que era, na verdade, branco.
Depois de nos apresentarmos, minhã mãe o entregou algumas roupas para que pudesse se vestir. Enquanto ele se banhava, ela nos contou um pouco da história. Antes de vir para casa, precisou parar para comprar-lhe um par de chinelos, porque a bermuda surrada que vestia era a única coisa que cobria seu corpo. A caminho de casa, M só fez duas perguntas: a primeira, se morávamos muito longe; a segunda, o que nossos vizinhos iriam pensar. Vejam vocês, nossa sociedade é tão eficiente, que consegue fazer a vítima se sentir culpada. M tinha plena noção de sua situação e de como era visto, e se sentia menos por isso, sentia como se não pertencesse àquele lugar, que não deveria ou merecia estar ali. E era só uma criança. Minha mãe respondeu que devia a muita gente, mas que não aos seus vizinhos e que, além disso, ele era seu convidado.
De um simples café da manhã, ele ficou também para o almoço e depois para o jantar. M passou dois dias e duas noites em nossa casa. Tempo suficiente para comprovarmos a suspeita de que ele não tinha 13 anos, nem era órfão, como dissera. Era notório que estava mentindo, por ser muito pequeno, do tamanho de meu irmão mais novo, na época com 10 anos - eram da mesma idade, afinal - e saber manusear bem o computador, além de conhecer jogos de videogame. Nenhuma criança que cresceu na rua saberia de tais coisas com tamanha precisão. Não demorou, minha mãe achou sua foto no site de crianças desaparecidas e contatou sua família.
Seus pais moravam em Parada Morabi, lugar do qual nunca tinha ouvido falar antes. Para chegar lá, era necessário pegar o trem de Saracuruna e saltar no ponto final, depois, mais a frente, pegar um trenzinho de uns três vagões apenas, que ainda soltava fumaça. Lá, descobrimos que M tinha mais três irmãos, uma menina mais velha e dois meninos mais novos. Um deles tinha alguma espécie de retardo mental, mas a mãe dos garotos não sabia dizer qual. O outro era apenas um bebê, de uns oito meses no máximo. Ele tinha machucados por todo o corpo e, novamente, a mãe desconhecia por qual tipo de bicho era ocasionado, já que na casa havia de tudo, incluindo ratos.
A mãe de M era, aparentemente, dona de casa, enquanto seu pai dirigia caminhões e tinha como hobbie o vício pela bebida e drogas pesadas. Cansado do ambiente de uma família desestruturada, M foi morar com a avó, no mesmo bairro e bem perto da casa de seus pais. A senhorinha, única que parecia dar afeto ao garoto, se mantinha viva através de uma bomba de oxigênio, pois tinha DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica) e por isso lamentava não poder vigiá-lo como gostaria. Ela então contou como tudo começou.
M estudava em um colégio público perto de casa, mas um belo dia, de uma hora para outra, foi transferido para uma unidade mais distante. Foi então, longe dos olhos de sua avó e ouvindo seu pai sempre repetir que ele deveria "se virar", que experimentou pela primeira vez o crack. E se viciou. A partir daí sua vida piorou mais do que poderia imaginar. M passou a fugir constantemente de casa e virou praticamente um morador de rua. Sem receber ajuda, suporte ou tratamento, ele passou a levar a vida correndo atrás do crack. Quando tentava retirar algumas palavras de sua mãe sobre o assunto, ouvia como consolo "fuma longe daqui, que o conselho tutelar tá de olho em mim". Não era para menos.
Foi pela sua vivência nas ruas que M conheceu minha mãe, que após o devolver, lutando contra sua vontade, para sua família por direito, conseguiu transferi-lo de volta para seu antigo colégio e o ajudou das formas que estavam ao seu alcance. Ela o ligava todas as noites e o buscava aos fins de semana, os quais passávamos todos juntos. Foram três ou quatro no total até ele fugir novamente e nos deixar sem notícias. Nunca mais soubemos dele.
M não só tinha, como expressava uma enorme vontade melhorar. Queria ajuda, mas nenhuma clínica pública aceitava alguém da sua idade. Não tinha suporte da família, nem do governo, e enfrentar tudo isso sozinho era demais para ele. M só tinha 10 anos e teve não só sua infância, como sua vida roubada. Ele não escolheu, e nem poderia, seu destino. Como as pessoas poderiam então culpa-lo se por acaso, no futuro, viesse a roubar, fosse para comer ou para sustentar seu vício? Portanto, não me digam que os milhares de sonhos roubados que vemos todos os dias dormindo no chão, pedindo esmolas ou cometendo crimes tiveram escolhas na vida, porque parece fácil quando a sua maior preocupação quando criança era ganhar aquele brinquedo que tanto pediu ao papai noel.
Entendo e fico feliz que existam casos em que as pessoas conseguem superar e traçar um rumo diferente. Mas isso não é fácil e nem cobrável. Leio todos os dias coisas como "bandido bom é bandido morto" e "direitos humanos para humanos direitos", mas o que são humanos direitos? Aqueles que amarraram e espancaram um menino a poucos dias? Ou os que se sentem revoltados por pessoas defenderem o direito à vida de alguém? Entendam que isso não é ser a favor de crimes ou criminosos, mas sim de que eles tenham um tratamento justo, previsto na lei. "Justiça" com as próprias mãos não é justiça, é carnificina. Não seria preferível reeducar e oferecer oportunidades no lugar de maltratar e traumatizar ainda mais essa vítimas - sim - da sociedade?
Em todos os olhares perdidos, em todas as esperanças esvaídas, eu vejo M. Ele pode ser o rapaz amarrado ao poste, ele pode me assaltar amanhã ou matar o meu amigo. E ele pode morrer a qualquer momento por uma vida que não escolheu, mas que é a única que conhece. Eu sinto muito que alguém tenha que passar por isso. E cada vez que eu pensar nele, ou em todos os outros nessa situação, os enviarei muita luz e me lembrarei de ser uma pessoa melhor a cada dia, uma pessoa que não se deixará levar por um mundo que se esqueceu o que é o amor ao próximo.
04 julho 2013
Drogas: um vício bilionário
As drogas fazem parte
da história da humanidade. Apesar da atual conjuntura política de combate a
elas vigente ainda na maioria dos países, como no Brasil, e opiniões divergentes
sobre o assunto, uma coisa tornou-se difícil de questionar: esta guerra é uma guerra perdida.
Em
levantamento feito pela ONU, comprovou-se que o narcotráfico movimenta mais de
400 bilhões de dólares por ano. Segundo o Fundo Monetário Internacional, em
2008, 352 bilhões de dólares foram absorvidos pelo sistema bancário do planeta.
A lavagem de dinheiro é feita pela Internet e abrange bancos de inúmeros
países.
A
situação não é diferente no Brasil, de acordo com o doutor em sociologia e
professor da UFRRJ José Cláudio Alves, o crime organizado é organizado pelo
Estado. “1kg de cocaína pura custa cerca de 7 mil reais, mas misturando-a a
outras substâncias, como pó de mármore, o mesmo 1kg passa a custar 42 mil
reais”, explica. Dessa forma, não é complicado imaginar por que o mercado de
drogas movimenta bilhões no Rio de Janeiro e em outras capitais, nem por que é
lucrativo para o governo que o tráfico permaneça na surdina.
Conforme números de 2009 – Lenad (Levantamento Nacional de Álcool e Drogas), feito pela Unifesp – o Brasil é o segundo maior consumidor de cocaína e derivados, atrás apenas do Estados Unidos. Este último já gastou cerca de 1 trilhão de dólares nos últimos 40 anos no combate às drogas, enquanto o Brasil retira, por ano, R$183 bilhões dos cofres públicos no combate à violência, 22% são gastos somente com o narcotráfico e crimes envolvendo o uso ou a venda de drogas. Ambos os investimentos se mostram ineficazes já que o número de usuários só se faz crescer onde a lei é recriminatória. Na Holanda, onde a maconha é liberada, o seu uso entre os jovens é o mais baixo da Europa.
Conforme números de 2009 – Lenad (Levantamento Nacional de Álcool e Drogas), feito pela Unifesp – o Brasil é o segundo maior consumidor de cocaína e derivados, atrás apenas do Estados Unidos. Este último já gastou cerca de 1 trilhão de dólares nos últimos 40 anos no combate às drogas, enquanto o Brasil retira, por ano, R$183 bilhões dos cofres públicos no combate à violência, 22% são gastos somente com o narcotráfico e crimes envolvendo o uso ou a venda de drogas. Ambos os investimentos se mostram ineficazes já que o número de usuários só se faz crescer onde a lei é recriminatória. Na Holanda, onde a maconha é liberada, o seu uso entre os jovens é o mais baixo da Europa.
Em
estudo realizado pelo psicólogo canadense Bruce Alexander nos anos 70 com ratos
de laboratório, descobriu-se uma ironia nas sociedades que criminalizam o
usuário de drogas: o problema é a jaula. Bruce decidiu repetir o experimento
que deu origem a todo o terror ao redor das drogas, trancando ratinhos albinos
em gaiolas com dois bebedouros, um que dava acesso à água e outro a morfina,
heroína ou cocaína. Como era de se esperar, estes tornaram-se viciados,
deixando de lado necessidades como comer, o que os levava à morte. Porém, ele
construiu outra gaiola, maior, com diversas opções de lazer, um “Rat Park”, e
incluiu os mesmos bebedouros. Os ratos do parque, ao contrário dos outros, não
ficaram viciados e quase sempre preferiam água às demais substâncias. O consumo
de drogas entre eles foi 19 vezes menor, o que nos leva a concluir que os
usuários de drogas permanecem no vício por não terem outras opções.
Crime
maior que a lucratividade ilegal do tráfico, é o tratamento dado aos
dependentes químicos onde não existe uma política para usuários de álcool e
outras drogas sem exclusão. Usuários moradores de rua são internados compulsoriamente,
violando o ART. 230 ECA, no caso de crianças e adolescentes, e o direito de ir
e vir de todos. Ao invés de receberem tratamento, são levados à verdadeiros
abrigos, tão desorganizados que nem sequer possuem o controle de quantas vezes
uma pessoa passa por ali.
Por
isso o discurso de muitos, surpreendentemente até de setores conservadores da
sociedade, tem mudado. Há uma real necessidade da legalização das drogas no
Brasil e no mundo, porque é inquestionável que isso é uma questão de saúde
pública, e não de polícia. O governo precisa parar de tratar o usuário de
drogas como criminoso e entender que, na verdade, ele é um ser humano que
precisa de ajuda. Com a legalização, há a possibilidade de resolução de outros
problemas, como o alto investimento no combate às drogas, que poderá ser
revertido em políticas de conscientização nas escolas e tratamento para
dependentes químicos, e o rompimento da organização bilionária que é o tráfico
de drogas.
17 junho 2013
Nosso futuro recomeça
Ninguém me contou. Não li no
jornal, nem vi na TV. Eu estava lá. Eu, fazendo parte das 100 mil pessoas que
presenciaram o protesto contra o aumento da passagem de ônibus no Rio de Janeiro,
nesta segunda-feira, 17 de Junho de 2013. Digo presenciaram, porque muitos
estavam conosco sem estar nas ruas. Por mais que digam que “ativismos de sofá”
não dão em nada, eu discordo. Há infinitas maneiras de colaborar, e sim, uma
postagem no Facebook, o compartilhamento de mensagens de ação, fazem diferença,
porque, mais do que levantar bandeiras e sair às ruas pedindo por melhores
condições de vida, estamos passando por uma revolução de conscientização.
Hoje sai de casa como que pronta
para a guerra, pronta para enfrentar a onda de violência que havia visto em
vídeos dias antes na Internet. Sai de casa pronta, portando máscaras, vinagre,
água e até assinei um habeas corpus preventivo, mas rezando para não precisar
usar nada disso. E, felizmente, não precisei. Da Candelária à Cinelândia,
manifestantes marcharam com o propósito de mudar o rumo do país, eles gritavam,
como se suas vidas dependessem disso, “o Brasil acordou”. Vi uma caminhada pacífica. Vi advogados se mobilizarem. Vi pessoas estenderem panos brancos da
janela e piscarem as luzes. Vi cartazes, máscaras, bandeiras, que gritavam
tanto quanto aquelas vozes. Vi reproduções na parede de prédios, recebi uma
chuva de papel picado, brancos, como pássaros da paz, e me emocionei. Esta foi
a manifestação da qual participei, e não esse ato de depredação e vandalismo na
Alerj, que a TV insiste em passar. Aqueles poucos, muito, muito poucos que
agiram como criminosos ali, não são e nem devem ser considerados manifestantes.
Mas, infelizmente, como em qualquer ato, sempre existem aqueles que desviam a
atenção de forma estúpida e, com a ajuda da grande mídia manipuladora, tentam
fazer com que você acredite que aquela é a realidade. Não é, não foi. A ação desse
pequeno grupo não mancha a grande ação dos 100 mil que cantaram como um só e lutaram
por todos nós. Nossa revolução é feita de flores e palavras, e é assim que deve
ser lembrada.
"Venha! Meu coração está com pressa, quando a esperança está dispersa só a verdade me liberta. Chega de maldade e ilusão. Venha! O amor tem sempre a porta aberta, e vem chegando a primavera, nosso futuro recomeça. Venha, que o que vem é perfeição."
27 maio 2013
Uma história diferente
1º de Abril de 1964, tropas do General Mourão em direção ao Rio de Janeiro, "Neste momento, declaro vaga a Presidência da República". A declaração feita pelo então presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, marca o fim do governo de João Goulart e o início dos 21 piores anos vividos pelo Brasil; é sobre este fato que o documentário "O Dia que Durou 21 Anos", dos jornalistas Flávio e Camilo Tavares, se propõem a falar. O filme de 77 minutos conta a história da Ditadura Militar sob uma ótica diferente da que estamos acostumados a ler nos livros de História. A proposta, não é a de contar a história dos anos de horror pelos quais o Brasil passou, mas sim revelar a participação obscura dos Estados Unidos da América nesse processo.
Textos de telex, áudios de conversas telefônicas, depoimentos de testemunhas do regime e imagens estão entre os documentos inéditos apresentados no documentário, a grande maioria do arquivo confidencial da CIA, órgão que o filme bem lembra, trabalhou clandestinamente no Brasil durante o governo de Jango.
Dentre os fatos abordados, há grande destaque para as intenções do governo estadunidense, que temiam uma revolução comunista à moda Cubana, com o diferencial de que o Brasil era maior e mais poderoso, o que a tornava muito mais "perigosa". A partir de relatos do embaixador dos EUA no Brasil, Lincon Gordon, salientado como talvez o maior responsável pela paranoia norte-americana, começou a surgir a preocupação com as propostas reformistas de Goulart e, consequentemente, a adoção de medidas para impedir a "perda" do território brasileiro para os comunistas, como se tomar um caminho próprio fosse agir de contra a democracia; muito pelo contrário.
O filme segue narrando os acontecimentos sempre envolvendo a participação do governo de Kennedy e, posteriormente, Lyndon Johnson com o golpe de 64 que depôs Jango e a instauração da Ditadura no Brasil de forma forte e marcada por depoimentos de personalidades que viveram no período e contestando o porquê de Goulart não ter resistido. A resposta é dada no próprio documentário: para evitar derramamento de sangue.
24 maio 2013
"Como se sente uma mulher"
Achei este texto - retirado do blog "Papo de Homem" - tão extraordinário, que resolvi compartilhar aqui no blog. Fazer um comentário sobre ele me limita a apenas concordar com tudo dito, já que expressa a angustia de ser mulher na sociedade atual, machista sim, preconceituosa, sim. Se pudesse dar outro título, o chamaria "desabafo".
Como se sente uma mulher
Aconteceu ontem. Saio do aeroporto. Em uma caminhada de dez metros, só vejo homens. Taxistas do lado de fora dos carros conversando. Funcionários com camisetas “posso ajudar?”. Um homem engravatado com sua malinha e celular na mão. Homens diversos, espalhados por dez metros de caminho. Ao andar esses dez metros, me sinto como uma gazela passeando por entre leões. Sou olhada por todos. Medida. Analisada. Meu corpo, minha bunda, meus peitos, meu cabelo, meu sapato, minha barriga. Estão todos olhando.

Aconteceu quando eu tinha treze anos. Praticava um esporte quase todos os dias. Saía do centro de treinamento e andava cerca de duas quadras para o ponto de ônibus, às seis da tarde. Andava pela calçada quase vazia ao lado de uma grande rodovia. Dessas caminhadas, me recordo dos primeiros momentos memoráveis desta violência urbana. Carros que passavam mais devagar do meu lado e, lá de dentro, eu só ouvia uma voz masculina: “gostosa!”. Homens sozinhos que cruzavam a calçada, olhavam para trás e suspiravam: “que delícia.” Eu tinha treze anos. Usava calça comprida, tênis e camiseta.
Agora, multiplique isso por todos os dias da minha vida.
Sei que para homens é difícil entender como isso pode ser violência. Nós mesmas, mulheres, nos acostumamos e deixamos pra lá. Nós nos acostumamos para conseguir viver o dia a dia.
Esses dias, estava sentada na praia vendo o mar, e dele saiu uma moça. Passou por um rapaz que disse algo. Ela só saiu de perto e veio na minha direção. Dei boa noite, ela falou que a água estava uma delícia, e conversamos um pouco. Perguntei se o cara havia lhe falado alguma besteira. Ela disse, “falou, mas a gente tá tão acostumada, né?, começa a ignorar automaticamente”.
O privilégio é invisível. Para o homem, só é possível ver o privilégio se houver empatia. Tente imaginar um mundo onde, por cinco mil anos, todos os homens foram subjugados, violentados, assassinados, podados, controlados. Tente imaginar um mundo onde, por cinco mil anos, só mulheres foram cientistas, físicas, chefes de polícia, matemáticas, astronautas, médicas, advogadas, atrizes, generais. Tente imaginar um mundo onde, por cinco mil anos, nenhum representante do seu gênero esteve em destaque, na televisão, no teatro, no cinema, nas artes. Na escola, você aprende sobre a história feita pelas mulheres, a ciência feita pelas mulheres, o mundo feito pelas mulheres.

No seu texto “Um teto todo seu”, Virgínia Woolf descreve por que seria impossível para uma hipotética irmã de Shakespeare escrever de forma genial como ele. Woolf diz:
“quando lemos sobre uma bruxa sendo queimada, uma mulher possuída por demônios, uma mulher sábia vendendo ervas… acho que estamos olhando para uma escritora perdida, uma poeta anulada.”
Desde o início do patriarcado, há cinco mil anos, as mulheres não tiveram liberdade suficiente para serem cientistas ou artistas. Woolf explica:
“liberdade intelectual depende de coisas materiais. … E mulheres foram sempre pobres, não por duzentos anos, somente, mas desde o início dos tempos.”
Esse argumento não serve somente para mulheres: negros, pobres e outras minorias não poderiam ser geniais poetas pois, para isso, é necessário liberdade material.
(Para uma análise mais completa, recomendo: “Um teto todo seu” de Virgínia Woolf: A produção intelectual e as condições materiais das mulheres.)

Embora o mundo esteja em processo de mudança, ainda existem menores oportunidades e reconhecimento para mulheres e minorias exercerem qualquer ocupação intelectual. Leitores de uma página do facebook sobre ciências ainda supõem que o autor seja homem e comentaristas de televisão não consideram manifestações culturais que vêm da favela como cultura de verdade.
É verdade: hoje, a vida é muito melhor, principalmente para a mulher ocidental como eu. Mas, mesmo sendo uma mulher livre e bem-sucedida vivendo em uma metrópole ocidental, ainda sinto na pele as consequências destes cinco mil anos de opressão. E, se você quiser ver essa opressão, não precisa ir nos livros de história. É só ligar a televisão:
Rio de Janeiro, 2013. Um casal é sequestrado em uma van. As sequestradoras colocaram um strap-on sujo, fedido de merda e mofo, e estupraram o rapaz. Todas elas, uma a uma, enfiavam aquela pica enorme no cu do moço, sem camisinha e sem lubrificante. A namorada, coitada, tentou fazer algo mas foi presa e levou chutes e socos.
Ao ver esta notícia, você se coloca no lugar da vítima (que sofreu uma das piores violências físicas e psicológicas existentes) ou no lugar de quem assistiu? Naturalmente troquei os gêneros: a violência real aconteceu com uma mulher.
Quantas violências eu sofro só por ser mulher?

Na infância, fui impedida de ser escoteira pois isso não era coisa de menina. Fui estuprada aos oito anos. (Eu e pelo menos dois terços das mulheres que conheço e que você conhece sofreram um estupro e provavelmente não contaram para ninguém.) Sofri a pré-adolescência inteira por não me comportar como moça. Por não ter peitos. Por não ter cabelos longos e lisos. Desde sempre tive minha sexualidade reprimida pela família, pela sociedade, pela mídia. Qualquer coisa que eu pisasse na bola seria motivo para ser chamada de vadia. Num dos primeiros empregos, escutei que mulheres não trabalham tão bem porque são muito emocionais e têm TPM. Em um outro emprego, minha chefe disse que meu cabelo estava feio e pagou salão para eu ir fazer escova e ficar mais apresentável pros clientes. Decidi que não quero ser escrava da depilação e sou olhada diariamente com nojo quando ando de shorts ou blusinha sem mangas. Já usei muita maquiagem, só porque a televisão e os outdoors mostram mulheres maquiadas, e portanto é muito comum nos sentirmos feias de cara limpa. Você, homem, sabe o que é maquiagem? Tem um produto para deixar a pele homogêna, um pra disfarçar olheiras, outro para disfarçar manchas, outro para deixar a bochecha corada, outro para destacar a sobrancelha, outro para destacar os cílios, outro para colorir as pálpebras, outro para colorir os lábios. Quantas vezes você passou tantos produtos na sua cara só porque seu chefe ou seu primeiro encontro vai te achar feio de cara limpa? Quando estou no metrô preciso procurar um cantinho seguro para evitar que alguém fique se roçando em mim. Você faz isso? Quando vou em reuniões de família, me perguntam por que estou tão magra, e o que fiz com o cabelo e quem estou namorando. Para o meu primo, perguntam o que ele está estudando e no que está trabalhando. Na televisão, 90% das propagandas me denigrem. Quase nenhum filme me representa ou passa no teste de Bechdel. Todas as mulheres são mostradas com roupas sexy, mesmo as super heroínas que deveriam estar usando uma roupa confortável para a batalha. As revistas me ensinam que o meu objetivo na cama é agradar o meu homem. Enquanto você, menino, comparava o seu pau com o dos amiguinhos, eu, menina, era ensinada que se masturbar é muito feio e que se eu usar uma saia curta não estou me dando o respeito. Quanto tempo demorei para me desfazer da repressão sexual e virar uma mulher que adora transar? Quanto tempo demorei para me soltar na cama e conseguir gozar, enquanto várias das minhas colegas continuam se preocupando se o parceiro está vendo a celulite ou a dobrinha da cintura e, por isso, não conseguem chegar ao gozo? Quanto tempo demorei para conseguir olhar para um pau e transar de luz acesa? Quantas vezes escutei, no trânsito, um “tinha que ser mulher”? Quantas vezes você fechou alguém e escutou “tinha que ser homem”? Tudo isso para, no fim do dia, ir jantar no restaurante e não receber a conta quando ela foi pedida pois há cinco mil anos sou considerada incapaz. E tudo isso, porra, para escutar que estou exagerando e que não existe mais machismo.
Isso é um resumo muito pequeno do que eu sofro ou corro o risco de sofrer todo dia. Eu, mulher branca, hetero, classe média. A negra sofre mais que eu. A pobre sofre mais que eu. A oriental sofre mais que eu. Mas todas nós sofremos do mesmo mal: nenhum país do mundo trata suas mulheres tão bem quanto seus homens. Nenhum. Nem a Suécia, nem a Holanda, nem a Islândia! Em todo o mundo “civilizado” sofremos violência, temos menos acesso à educação, ao trabalho ou à política.
Em todo o mundo, somos ainda as irmãs de Shakespeare.
* * *
E você, leitor homem? Quando é abordado de forma hostil por um estranho na rua, pensa “por favor, não leve meu celular” ou “por favor, não me estupre”?

17 maio 2013
Meu primeiro documentário
Filmar é a menor parte. Isso foi uma das coisas que aprendi com o meu primeiro documentário, já que pensava exatamente o contrário: que filmar era tudo. A partir de um trabalho de faculdade para a disciplina de Introdução ao Cinema, com um grupo mais ou menos aleatório composto por 6 pessoas, comecei a pensar em um tema para filmar, obrigatoriamente, um curta-documentário de até 10 minutos. No começo, achei que 10 minutos fossem muito, o pensamento era de talvez não conseguir alcançar esse tempo; mais uma vez estava enganada. Depois de começar a produzir, tudo o que mais queria era que o professor tivesse pedido um longa.
O tema foi sugerido por uma das integrantes do grupo, Marina Martins, e logo todos adotaram a ideia. Falaríamos sobre "saudade", era perfeito, um documentário com um "quê" de poético. No instante em que todos concordaram, minha cabeça voou a mil em pensamentos, e não parou mais. No meio a tanta imaginação, ideias, sugestões e, principalmente, idealização de como tudo seria - cheguei a pensar até em como seriam os depoimentos dos entrevistados, vê se pode? -, nos deparamos com a realidade: fazer um filme não é fácil.
Burocracia, este foi o maior de nossos problemas. Apesar de toda a filmagem ter sido dentro da faculdade (PUC-Rio), precisamos de autorização para filmar cada mínimo local, cada pessoa. E não foi fácil conseguir. O tempo tomado com levar papéis e assinaturas de um lado para o outro, seria o equivalente a produzir, pelo menos, mais dois curtas; o pior é saber que essa situação não se aplica somente ao ambiente universitário, mas a toda e qualquer produção, em qualquer que seja o lugar, processo que de fato não faz diferença alguma, na maioria das vezes.
O projeto para o documentário era reunir depoimentos de diferentes formas e tipos de saudade. Agendamos entrevistados, equipamentos, ilha de edição, e até conseguirmos conciliar todos, levou um certo tempo, mas o importante é que, no fim, tudo deu certo. Apesar da nossa inexperiência cinematográfica e do tempo apertado, demos o nosso melhor. Claro, sempre há os que se doam mais do que os outros, mas isso faz parte, e o resultado foi compensador de todo trabalho. Qual a lição que aprendi com o meu primeiro documentário? 10 minutos podem dar muito trabalho.
ATENÇÃO! Assista até o final.
Perda, dor, nostalgia, esperança, memórias que nos aproximam daquilo que já não pode mais estar presente e o torna imortal dentro de nós: isso é a saudade, palavra da língua portuguesa, sentimento universal. É acreditando que todos compartilham desta sensação, que o curta-documentário “Ausência Presente” relata, através de depoimentos, 3 histórias distintas, demonstrando o quão abrangente e forte esse sentimento pode ser.
Curta-documentário produzido para a disciplina de Introdução ao Cinema da PUC-Rio. Integrantes: Bruna Montebello, Lorena Muniz, Lucas Rohloff, Marina Martins e Patrícia Bello. Músicas: "Saudade" - Marcelo Camelo e "Gostava tanto de você" - Tim Maia.
“A saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar.”
(Rubem Alves)
*Pedimos desculpas pelo problema no áudio da entrevista de Agostinho Dias Carneiro.
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01 abril 2013
Recomeço
Há muito que não posto mais nada aqui, com a correria do dia-a-dia, foi complicado dar ritmo às postagens. Post com única finalidade de informar que voltarei a escrever! É isso. :)
18 janeiro 2012
SOPA: O fim da liberdade de expressão pela Internet
Para as pessoas que ainda não sabem do novo projeto de lei do Congresso dos Estados Unidos da América, irei explicar: O SOPA (Stop Online Piracy Act) e a PIPA (Protect Intellectual Property Act) são propostas de lei que surgiram da tentativa das indústrias fonográficas de acabarem com a "pirataria" na Internet, ou seja, acabar com o compartilhamento de músicas, filmes, livros, séries e outros tipos de downloads gratuitos. Seria o fim de coisas como MegaUpload, 4shared, RapidShare, Wikipédia, grande parte do conteúdo presente em pesquisas no Google, entre outros. O projeto é válido apenas para o território dos EUA, mas como grande parte dos sites são norte-americanos, seríamos todos prejudicados. Redes como o Facebook, Twitter e Youtube também seriam afetados.
Os nomes parecem brincadeira, afinal sopa é de comer, e pipa é feita para soltar, porém o assunto é bem sério. Como você faria seus trabalhos do colégio/curso/faculdade? E como escutaria música, teria que comprar todos os CDs das bandas que você gosta? E as séries, o seu grande vício? E os animes e desenhos? Sim, sua vida estaria acabada. A de todos nós.
Mas o pior não é isso, é a perda da liberdade de compartilhar e baixar aquilo que você deseja. Onde está a democracia nisto? Estamos retrocedendo no tempo, e voltando à época da ditadura e fascismo, onde os governantes e grandes empresas manipulavam e restringiam aquilo que a população poderia ter acesso. É um absurdo!
"O primeiro projeto de lei, que tramita na Câmara dos EUA, tem como líder Lamar Smith, republicano do Texas, além de um grupo bipartidário de doze autoridades. O segundo, tramita no Senado americano, e foi proposto pelo senador democrata Patrick Leahy e um grupo de 11 integrantes também bipartidário.
A lei conhecida como PIPA será votada pelo Senado dos EUA no dia 24 de janeiro e, para pressionar as autoridades, sites americanos fizeram um blecaute cordenado na quarta-feira (18). A ação tem como objetivo encorajar os internautas a procurar um membro do congresso do local onde reside, para pedir que ele vote contra as propostas de lei.
Sem fazer distinção, qualquer site conectado via hiperlink com outro site apontado como pirata pode, a pedido do governo ou de empresas donas do conteúdo como gravadoras, editoras e estúdios de filmes ser banido da internet." (O globo)
23 dezembro 2011
Diário da Madrugada
Como é de conhecimento daqueles que me acompanham, o blog se chamava "Across the Universe" (ver aqui), mas resolvi mudá-lo, faltava aquele toque especial, algo que o descrevesse mais. Então o renomeei de "Diário da Madrugada", já que aqui dou o meu olhar sobre os acontecimentos, notícias - sempre carregadas de opinião -, publico meus textos, frases e pensamentos; quanto ao "madrugada", deve-se ao fato de que me torno mais criativa nesta parte do dia, e é aí que as ideias saem... Parece contradição, mas é no escuro da noite, que tudo se torna mais claro.
Irei aproveitar o post, e agradecer as mais de 10 mil visitas neste ano de 2011. Obrigada e continuem acompanhando o Diário, espero que tenham gostado!
Obs.: Lembrando que o link mudou também!
12 novembro 2011
Transcarioca sim. Na Uranos, NÃO!
Você sabe o que é a Transcarioca?
"Venha participar você também da grande manifestação contra a alteração da Transcarioca que causará um grande prejuízo à nossa comunidade! DIA 15 NOVEMBRO! FERIADO! NA PRAÇA DE RAMOS (EM FRENTE AO VIADUTO DE RAMOS)! 10:00 DA MANHÃ!"
"A Transcarioca é uma via que terá 39 km de extensão e 45 estações entre o Cebolão e o Aeroporto do Galeão. Ela passará por vias como a Avenida Ayrton Senna na Barra da Tijuca, Nelson Cardoso e Cândido Benício em Jacarepaguá, e a Avenida Ministro Edgar Romero em Madureira. Terá integrações com a Transoeste, estações de trem, linhas de ônibus convencionais e a Linha 2 do Metrô."
"O conceito de BRT (Bus Rapid Transit em inglês) é dar velocidade ao deslocamento de passageiros através de pistas exclusivas para ônibus articulados, onde o tempo de viagem seja o menor possível. "
Esse é o projeto apresentado pela prefeitura com o objetivo de melhorar os transportes no Rio de Janeiro, criando vias exclusivas para ônibus, que possibilitem um deslocamento mais rápido e de maior distância. Porém, ele foi alterado devido a protestos de moradores da Estrada do Engenho da Pedra, por onde originalmente a Transcarioca passaria.
A alteração do trajeto dos BRTs, afetará os moradores e comerciantes da Rua Uranos, Emílio Zaluar, Av. Dos Campeões, Av. Postal e Teixeira de Castro, que com um abaixo assinado, pretendem mudar essa realidade antes da divulgação do Decreto Municipal que tornará oficial a modificação do projeto original da Transcarioca.
A grande reivindicação do abaixo assinado é que, com esse novo planejamento, muitos comerciantes e moradores serão desapropriados, causando inúmeros danos para a região. A retirada do comércio, que emprega muitas pessoas, virá junto ao desemprego e, além disso, também haverá desapropriação de domicílios. O governo paga apenas o valor do terreno e não considera o valor do imóvel, ou seja, prejuízo para os moradores. E se alguém se negar a "vender" sua casa, não adiantará em nada, porque essa região é considerada área de risco, logo ninguém paga IPTU e portanto não possuem certos direitos. Muito cômodo para o governo, não? Com isso, a Uranos virará um deserto. Quem frequenta essas ruas, sabe o quanto são perigosas, imaginem depois? É muita ilusão achar que o governo fornecerá policiamento, já que isso não era feito nem antes, quanto mais agora. Podem até providenciar algo nas primeiras semanas, mas logo voltará o desleixo.
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| A linha vermelha indica o projeto original, que passaria pela Estrada do Engenho da Pedra. A linha amarela, por sua vez, representa o novo traçado proposto pela Prefeitura do Rio de Janeiro. |
No antigo projeto haveriam pessoas prejudicadas? Sim, por isso fizeram um protesto e conseguiram a mudança. Aqui também haverá muitos prejuízos, talvez até maiores, com a adesão de seis pistas de tráfego no lugar dos antigos estabelecimentos e casas. Portanto, estamos fazendo o mesmo, e se tudo der certo conseguiremos a mudança. "Ah, mas aí vão mudar para outro lugar e acontecerá a mesma coisa." Ótimo, enquanto as pessoas fizerem isso, eles terão de buscar alternativas, e não tenho dúvidas de que conseguirão. É obrigação deles conseguir! O governo deve se submeter aos desejos da população, e não o contrário.
"Não somos contra a Transcarioca. Somos contra desapropriações desnecessárias!"
- Alguns estabelecimentos prejudicados: Super mercado Mundial, Lar das Tintas, Laélia Flores, Correios, Farmácia Brasil, Drogarias Pacheco, Academia Forma e Movimento, Ousado, parte do colégio Pio XI, Banco Santander e as Lojas Americanas.
- Vídeo do projeto original:http://www.youtube.com/watch?v=M9k-lm3YpTU&feature=player_embedded
Fique alerta aos postos de coleta de assinaturas:
- Rua Uranos, 945
- Rua Uranos, 1098
- Rua Uranos, 1342
- Rua Roberto Silva, 71
- Rua Cardoso de Morais, 423
Dúvidas: entre em contato através do email: transcariocanao@gmail.com ou através dos telefones 2260-6471 / 7524-6097.
ATENÇÃO MORADORES E COMERCIANTES! PROTESTO NO FERIADO DO DIA 15 DE NOVEMBRO!
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